Dia Internacional da Mulher: qual é seu propósito?

O Dia Internacional da Mulher.

O RH Pra Você pensou em uma coluna sobre nós mulheres, nossas experiências e a importância da equidade para as empresas, inclusive para performance e engajamento da marca.

Eu devo dizer que, para um Congresso da Universidade de Salamanca, estudei um pouco o ESG de equidade de gênero das empresas e sua efetividade[1]. Não sei se o resultado que encontrei levaria a um engajamento maior.

Então, resolvi falar desse dia e da questão real da mulher hoje, aproveitando que finalizei meu mestrado justamente sobre esse tema da equidade de gênero no trabalho – mais especificamente da indústria automotiva em São Paulo.

E não será um texto sobre como as mulheres dão conta de tudo, são sensíveis, importantes para o mundo, etc.

Então, vamos voltar ao começo desse texto: o Dia Internacional da Mulher.

Não, ele não foi criado por causa de um incêndio em uma fábrica em Nova York. A sua criação não decorre de um ato único, mas de várias lutas e reivindicações femininas. Para quem quiser mais informações, sugiro o livro ‘As Origens e a Comemoração do Dia Internacional das Mulheres’, de Ana Isabel Álvarez González.[2]

Estamos em 2026. As diferenças de tratamento entre homens e mulheres perduram ainda.

Em matéria, a ONU Mulheres nos mostra que “nenhum país do mundo alcançou a plena igualdade jurídica para mulheres e meninas. Da proteção contra a violência de gênero à igualdade salarial, mulheres e meninas ainda não são iguais perante a lei, e a impunidade pelas violações de seus direitos persiste em todo o mundo” (4 de março de 2026 – ONU Mulheres).[3]

Resumidamente, encontramos ali dados bastante preocupantes. Em sua manifestação, a ONU Mulheres alerta que os sistemas judiciais em todo o mundo estão falhando com as mulheres, pois elas têm apenas 64% dos direitos legais que os homens possuem. Isso as expõe à discriminação, à violência e à exclusão.

Mais ainda, um relatório do Secretário-Geral da ONU destaca que, em 54% dos países, o estupro não é definido por consentimento e, em quase 75% das nações, as meninas ainda podem ser forçadas a se casar.

No âmbito do trabalho, 44% dos países não possuem leis que garantam salário igual para trabalho igual.

Mas isso decorre de preconceito de “gerações antigas”!

Será?

Foi noticiado o resultado de uma pesquisa do King’s Global College, com o Instituto Ipsos, e a manchete diz: “Para um terço dos homens da geração Z, esposas devem obedecer aos maridos, diz pesquisa”.  Um quarto deles acredita que mulher não deve parecer independente, porém 41% consideram que mulheres com carreiras de sucesso são mais atraentes, segundo estudo” (07 de março de 2026 – Pesquisa Global King’s College).[4]

No site da Ipsos[5], encontramos a conclusão dos principais dados dessa pesquisa:

Percepção do progresso na igualdade de gênero

• 52% acreditam que a igualdade de gênero avançou suficientemente desde 2019.
• 23 dos 24 países mostram um aumento no número de pessoas que consideram o progresso adequado.

Opiniões dos homens sobre as contribuições para a igualdade

• 54% dos homens consideram que estão fazendo o suficiente pela igualdade, em comparação com 38% das mulheres.
• Existem diferenças significativas entre as percepções dos homens e das mulheres.

Preocupações com a discriminação entre os homens

• 52% dos homens acreditam que promover a igualdade das mulheres resulta em discriminação contra eles.
• Apenas 36% das mulheres compartilham dessa opinião.

Crença nos benefícios da liderança feminina

• 60% concordam que mais mulheres em posições de liderança melhorariam os resultados.
• 68% das mulheres e 53% dos homens apoiam essa ideia.

Otimismo em relação ao futuro

• 55% das mulheres jovens preveem um futuro melhor para sua geração em comparação com suas mães.
• Apenas 40% dos homens jovens pensam o mesmo sobre seu futuro em comparação com seus pais.

Opções de autoexpressão x emprego

• As mulheres são vistas como tendo mais opções de autoexpressão (por exemplo, moda, namoro).
• Os homens são vistos como tendo mais opções relacionadas ao emprego (39%).

No site do King’s College, você encontra a apresentação integral da pesquisa.[6]

Das conclusões acima, vou frisar três itens que entendi interessantes porque se ligam com o que estudei no mestrado na UOC (Universitat Oberta de Catalunya).

Na pesquisa, 52% entendem que o que as mulheres conquistaram até hoje já está suficiente, nada mais é necessário para as mulheres se desenvolverem. A maioria dos homens acha que está fazendo o suficiente pela igualdade, ao mesmo tempo que a maioria acredita que a igualdade das mulheres gera discriminação contra homens.

Por que a ligação com o que estudei na UOC? No meu trabalho final, estudei a equidade de gênero no trabalho me questionando por que a cada ano que passa novos quase duzentos anos continuam necessários para a igualde de gênero no trabalho, apesar de inúmeros tratados internacionais e lei nacionais para obter tal equidade. Analisei o tema com base no preconceito inconsciente.

“Eu sou moderno e não tenho isso não”, pensarão muitos.

Sugestão? Faça o “Teste de Associação Implícita” e veja bem se é isso mesmo.

No meu trabalho, dentre vários estudos, analisei um relatório da ONU sobre a condição da mulher no mercado de trabalho trinta anos depois da Resolução de Pequim[7].

O que esse relatório mostra é que embora tenha havido alguns avanços na igualdade de gênero, estes têm sido lentos e desiguais. Em 2024, apenas 46,4% das mulheres tinham emprego, em comparação com 69,5% dos homens.

As mulheres dedicam menos tempo ao trabalho remunerado e muito mais ao trabalho não remunerado. Isso limita sua entrada no mercado de trabalho. Em nível global, a renda do trabalho das mulheres em 2024 ultrapassou apenas metade da dos homens. São necessárias medidas para melhorar o acesso das mulheres ao emprego, garantir remuneração igualitária e eliminar barreiras estruturais. Portanto, as disparidades de gênero no mercado de trabalho são significativas e continuam exigindo políticas de emprego inclusivas.

Analisei então vários estudos sobre o viés inconsciente, que nada mais é do que o preconceito escondido no recôndito de nossas almas. Algo que nem imaginamos estar ali, mas que molda nossos pensamentos e atitudes, e precisa ser conhecido para ser destruído.

Na questão da mulher, está extremamente ligado o seu papel social. Ou seja, qual o papel social do homem e qual o da mulher.

E isso não é “coisa de homem machista capitalista conservador”. Estudos mostram que mulheres repetem esse viés, que homens como Marx e Engels[8] repetem esse viés, que feministas repetem esse viés quando se trata de mulheres em um trabalho mais operacional.

Um estudo intitulado “Entre o empoderamento light e o feminismo corporativo moderado: Igualdade de gênero e emancipação das mulheres nas organizações[9]” mostra que as mulheres em posições mais altas não parecem fazer tanta diferença assim, como cremos. Infelizmente.

Nesse estudo, os autores concluem que o feminismo corporativo moderado, apesar de reconhecer e questionar as dinâmicas de poder, muitas vezes se limita a um empoderamento que não questiona as normas patriarcais, pelo que é necessária uma abordagem institucional que integre diferentes vozes e experiências para alcançar uma mudança real.

Então, essa não é uma coluna de comemoração.

Não há ainda o que comemorar, mas sim, a desvelar.

Analisar com honestidade nossas atitudes e pensamentos, buscar a origem de alguns julgamentos e opiniões. Lembra a questão do “louca x assertivo”?

Uma opinião em um blog “Grossa ou Assertiva: depende do gênero?”[10] mostra isso de uma forma rápida e certeira.

Ali encontramos justamente a questão do que se “espera do papel social da mulher”.

“(…) Desde a nossa infância, nós, mulheres, somos condicionadas a assumir uma determinada postura; devemos ser delicadas, manter o tom de voz baixo, não devemos nos impor em uma discussão etc., ao ponto em que consideramos grosseira uma mulher que está apenas sendo assertiva e consideramos assertivo um homem que está sendo grosseiro.”

E ainda:

“Fora do ambiente acadêmico, em reuniões de trabalho, por exemplo, também podemos observar essa diferença: ao homem é dado de antemão o ‘direito’ de interromper, de falar mais alto, de perder a paciência e até mesmo se exaltar, enquanto a mulher que fizer o mesmo será classificada como histérica, desequilibrada ou louca[11].”

E para falar um pouco do que me pediram para a coluna, trato aqui da minha experiência rapidamente.

Atuo numa área vista como “masculina”. Não o Direito do Trabalho, em que atuo de forma consultiva, e que é sim, visto como “feminino”, porque envolve “cuidado”, mas área de assessoria sindical, precisamente, sentar-se à mesa de negociação sindical.

Apesar de ter começado em 1988 como autônoma ao lado do meu pai, sempre assumi o controle do escritório, seu planejamento e serviços. Desde 1998 atuo em meu escritório.

Eu assessoro empresas nas relações de trabalho e sindicais. Preciso criar estratégias, verificar questões legais, dizer ao meu cliente quando ele está assumindo um risco e seu grau. Ou seja, serei eu quem dirá se aquela atitude da empresa é ou não correta do ponto de vista legal. Vou ter que contrariar alguns CPFs no meio da caminhada (afinal trabalho para CNPJ), e também ter que criar estratégias para poder negociar o melhor acordo, e isso implica em ceder, o que nem sempre é fácil conseguir, seja do cliente ou do sindicato que negocia.

E na negociação vou lidar com diretores homens – nas empresas e nos sindicatos. Nesses meus 38 anos foi muito, mas muito raro, encontrar alguma sindicalista mulher na mesa de negociação.

E é claro que quando um homem se coloca numa reunião dessas, ele é assertivo, já uma mulher, está “causando”. De verdade, eu literalmente já ouvi isso muitas vezes, ou porque mostro posições ilegais em negociações (sou chamada de “legalista”, o que para mim é um elogio) ou porque dou opinião sobre as cláusulas e sobre como as negociar (às vezes em assembleias de data base em que represento clientes), e as pessoas se espantam.

Também em reuniões estudo, em grupos e comitês, especialmente quando eu contrario algum homem tido como “A” autoridade. Eu vejo o desconforto, inclusive nas mulheres, como se esse não fosse o “papel adequado” de uma mulher.

Quando as mulheres se colocam são grossas, loucas, “muito diretas”, né?

Isso é viés inconsciente, isso é você pensando com o estereótipo do que é a mulher na sociedade.

De mim, posso dizer que estou bem feliz sendo mulher. Na minha vida privada e na minha área de trabalho, conseguindo respeito dos meus pares. Sucessos em negociações sindicais complexas, e a ajuda que consigo dar no gerenciamento das relações de trabalho, são importantes, pois mostram que mulheres podem atuar nessa área com maestria. Quem gostar da área, não desista.

Voltando à pergunta do título: Dia Internacional da Mulher: qual é seu propósito?

Eu faço minha sugestão nesta coluna, que não é para as empresas terem só mais “diversidade”, mais “ESG”, mas sim, para que as pessoas, que fazem essas empresas, e esses RHs, pensem antes de formar sua opinião sobre as mulheres e sua posição no mundo do trabalho, e percebam se esse seu pensamento não está fundado em um preconceito que nem sabiam que existia. Por mais duro que seja, temos que enfrentar nossos preconceitos inconscientes, porque todos nós os temos, afinal, somos fruto de uma sociedade que cria esses estereótipos, tanto para homens como mulheres. Sem isso, não vamos a lugar nenhum.

Que esse “Dia Internacional da Mulher” sirva para essa reflexão.

Fonte: RH Pra Você

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