NR-1: o que muda com a suspensão das multas e o que empresas precisam fazer agora

A suspensão temporária das multas e de outras sanções administrativas relacionadas à inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais não interrompe a vigência da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) apenas ampliou o prazo para que as empresas se adaptem às novas exigências.

A suspensão das sanções deve terminar em 23 de setembro. Até lá, as organizações precisam aproveitar o período para revisar os Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), identificar situações que possam afetar a saúde dos trabalhadores e estabelecer medidas de prevenção.

A atualização da NR-1 amplia a gestão dos riscos ocupacionais ao incluir fatores psicossociais relacionados à organização e às condições de trabalho, como excesso de demanda, jornadas prolongadas, assédio e conflitos interpessoais. O objetivo é prevenir situações que possam contribuir para o adoecimento dos trabalhadores, inclusive impactos na saúde mental.

Para especialistas em saúde ocupacional, a suspensão das penalidades não deve ser encarada como uma oportunidade para adiar as mudanças. O período adicional pode ser utilizado para estruturar processos, preparar lideranças e fortalecer uma cultura de prevenção dentro das organizações.

“O maior desafio não é cumprir uma exigência regulatória, mas sim transformar a gestão dos riscos psicossociais em uma prática permanente. Isso exige preparo das lideranças, canais de acolhimento, processos bem definidos e uma cultura organizacional capaz de reconhecer precocemente situações de sofrimento emocional,” afirma Kátia Nakamura, gerente de Saúde, Segurança e Bem-Estar da Rede Santa Catarina. 

Empresas ainda têm dificuldade de adequação

O cenário mostra que o período adicional pode ser importante para as empresas que ainda não concluíram as mudanças. Pesquisa inédita realizada pela FIA em parceria com a Flash, com 168 CEOs de empresas com mais de 300 funcionários, aponta que apenas 20% afirmam ter implantado completamente os processos de gestão de riscos psicossociais.

Outros 58% ainda estavam em fase de implementação e 11% sequer tinham previsão para cumprir as exigências legais.

A pesquisa também identificou uma relação entre a maturidade das políticas de gestão de pessoas e a adequação à norma. Empresas com estratégias mais maduras de benefícios e remuneração têm 77% mais chance de estar em conformidade com a NR-1.

Para Kátia, um dos pontos que exige atenção é a capacidade das equipes de identificar mudanças no comportamento dos trabalhadores. Nem sempre a própria pessoa percebe os primeiros sinais de um processo de adoecimento emocional.

“Muitas vezes, quem enfrenta um processo de adoecimento emocional continua desempenhando suas atividades normalmente. Preparar essas equipes para reconhecer sinais e saber como acolher pode fazer toda a diferença”, afirma.

Risco psicossocial não é o mesmo que sofrimento mental

Nakamura também chama atenção para uma diferença importante na aplicação da norma. Risco psicossocial está relacionado às condições e à organização do trabalho, enquanto o sofrimento mental diz respeito à experiência individual do trabalhador. “Idealmente, as empresas precisam atuar nas duas frentes: reduzir fatores de risco e garantir acolhimento e encaminhamento quando necessário”, explica Kátia.

A distinção reforça que a NR-1 não trata apenas de oferecer suporte ao trabalhador depois que um problema aparece. A proposta envolve também identificar e modificar condições presentes no ambiente e na organização do trabalho que possam contribuir para o sofrimento.

Saúde mental e organização do trabalho

Dados da terceira edição do índice Engaja S/A, realizado pela Flash em parceria com a FGV, ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o levantamento, 18% dos trabalhadores brasileiros convivem diariamente com sintomas negativos de saúde mental, como ansiedade, insônia e depressão.

A pesquisa identificou diferentes manifestações do sofrimento emocional dentro das organizações. Entre elas estão o profissional ansioso, com maior incidência entre jovens e desengajados; o profissional exausto; aquele que não consegue se desligar do trabalho; o profissional desconectado; e o profissional solitário, ligeiramente mais comum em modelos remotos.

Entre as lideranças, 74% relatam fadiga frequente, associada à sobrecarga contínua. Já 18% dos trabalhadores relatam insônia diária, especialmente em jornadas intensas, como as escalas 6×1 e 12×36. A depressão pode ser até três vezes mais frequente entre profissionais ativamente desengajados. Os profissionais desengajados também apresentam até três vezes mais ansiedade do que os colaboradores engajados.

Por outro lado, o levantamento aponta que fatores relacionados à própria organização podem contribuir para a redução dos sintomas. Ambientes positivos, confiança na liderança, clareza na gestão e percepção de propósito aparecem entre os elementos de maior impacto.

Entre as práticas associadas à redução do sofrimento emocional estão:

• desenvolvimento pessoal e profissional;
• lideranças preparadas psicologicamente;
• planos estruturados de carreira;
• treinamentos contínuos;
• modelos de trabalho flexíveis;
• programas de conexão e pertencimento.

As ações de desenvolvimento profissional estão associadas a reduções de até 25% em sintomas como ansiedade, depressão e solidão. Já lideranças preparadas psicologicamente aparecem relacionadas a reduções de até 22% em ansiedade e 21% em fadiga.

Para Isadora Gabriel, CHRO da Flash, a mudança na NR-1 acelera uma transformação que já estava em curso nas empresas: a passagem de uma atuação reativa para uma abordagem preventiva em saúde mental.

“A atualização da NR-1 torna mais explícita uma discussão que já vinha ganhando espaço nas empresas: saúde mental não pode mais ser tratada apenas como consequência individual. Embora outros aspectos da vida do colaborador também influenciem a sua saúde mental, os dados mostram que fatores organizacionais e práticas de gestão também têm impacto sobre o sofrimento emocional e que lideranças mais preparadas e ambientes mais saudáveis ajudam a reduzir esses sintomas”, afirma Isadora.

Fonte: O Tempo

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